Diário do Bombeiro: Mario é coisa de criança? Ora, Cactubolas!


Certa vez, como resposta de uma enquete social envolvendo os Cactubolas, me advertiram que me referir aos inimigos do Mario pelos nomes adaptados para português do Brasil era algo que soava aos ouvidos de forma infantil. "O nome deles não é Pokey?", lia-se.

Aos fundamentos: já há bastante tempo, brasileiros têm lutado pelo seu direito de legendas e dublagens em seus jogos favoritos. Desde a época dos cartuchos em 16 bits, daqueles que alugávamos às sextas-feiras nas extintas locadoras de vídeo, temos configurado os jogos em idiomas castelhanos numa tentativa de compreender por cima a intenção do que era expressado. Por mais clássico que possa soar, o jogador tupiniquim se contentava com o "saque de goleiro!" e o "peligro!" do Campeonato Brasileiro '96 e, infelizmente até hoje, ainda é preciso lutar pela localização de determinadas franquias de videogame.

Campanhas comunitárias como a de Sonic Frontiers conseguiram atrair a atenção de grandes artistas, influencers e até mesmo developers que ajudaram a disseminar a relevância cultural de uma localização bem feita, tal qual o respeito pelos fãs e a valorização do mercado local. Indubitavelmente positiva, a chegada de first-parties da Nintendo em plataformas móveis como Super Mario Run e Mario Kart Tour tem impulsionado a erudição e o desenvolvimento de toda uma mitologia do Mario narrada em língua local.

Já há muitos anos, o Reino do Cogumelo tem sido referência na disseminação de informações sobre Mario no Brasil; portanto, a aplicação natural dos nomes regionais à nossa redação não é nada menos que uma extensão natural desse legado — além, é claro, da nossa parte nesse sutil, mas essencial esquema de troca de reconhecimento. Logo, Dry Bones são Quebra-ossos, Spinies são Espetos, Scaredy Rats são Ratacantes. Mas Goombas serão Goombas, Lakitus ainda serão Lakitus, e está tudo bem.

Em um lugar no qual se tem o privilégio de dizer Manda-Chuva ao invés de Top Cat, Joca e Dingue-Lingue ao invés de Hokey Wolf, e Plic, Ploc e Chuvisco ao invés de Pixie and Dixie and Mr. Jinks, falho redondamente ao perceber qualquer fator que tornaria complicado se referir à pista Merry Mountain como Vila dos Presentes ou ao minijogo Cake Factory como Bem Bolados.

Abraçar nomenclaturas regionais não somente é uma forma de agradecer à indústria gringa pelo reconhecimento, como também de valorizar a cultura que gradualmente estabelecemos por aqui. E também pelo fato de que, até onde bem me lembro, não há idade máxima para decorar as falas dos episódios do Chaves, ou para reproduzir a cantina de Mos Eisley de Star Wars com blocos de montar. Não há idade máxima para desfrutar de um filme de animação infanto-juvenil — que, diga-se de passagem, exigiu uma hercúlea quantidade de dedicação de times compostos por centenas de adultos. Por isso, hoje, e perdoem-me os avessos, é com um sorriso no rosto e um calor no coração que me refiro aos Pokeys como Cactubolas.

Nunca, em toda minha vida, me senti envergonhado por ter crianças apoiando a Nintendo. Eu tenho orgulho disso. Isso é porque as crianças julgam os produtos com base no instinto.
Satoru Iwata (Seattle Post-Intelligencer, 2015)

Claro, cada indivíduo possui seu próprio método e perspectiva, e nem toda a adaptação fica perfeita, mas aos colegas de jornalismo e do marketing de influência digital, não posso deixar de solicitar: não tenham vergonha de abraçar as cores e as flores de Super Mario. É uma franquia bonita, carismática, que nem sempre se leva a sério, e que todos podem desfrutar.

Compreendam que, se estiverem fazendo algo que pode ser considerado infantil, você está no caminho certo; porque crianças correm sem medo de cair, e representam para nós o estado mais puro que um ser humano já alcançou — antes de se tornar o amargurado que tem orgulho de dizer que abandonou para sempre a sua candura.

Uma excelente semana a todos! Força da Massa!
Eduardo Jardim

Natural de São Paulo (SP), Eduardo "Pengor" Jardim é um criador de conteúdo, cartunista e imaginauta. Criou o Reino do Cogumelo em 2007 e desde então administra e atualiza seu conteúdo, conquistando um prêmio Top Blog e passagens pela extinta Nintendo World.

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